- Nossa, como ela tá linda!
- Ei cara, aquela ali é a minha namorada.
- É dela mesmo que eu tô falando. Ela tá linda demais. Mudou a cor e o corte de cabelo né, e está vestindo umas roupas mais curtas. Um mulherão. Gostei. Mas me parece que as manias são as mesmas. Reparei pelo o jeito de sorrir, olhe lá. Ela sorri e junto se destaca as suas covinhas. Sempre me amarrei no sorriso dela, mas ela tinha vergonha quando eu falava das covinhas. Ela nunca gostou. Quando ela está ansiosa, ela morde os lábios e começa a esfregar as mãos. Já notou? Ela soa demais. Aí é só você colocar pra tocar “Coldplay” que ela se tranquiliza. Não se esqueça que “Lost” é a preferida dela, viu? Ela sempre disse que acalma, e as vezes eu até pegava meu violão e tocava, ao invés de colocar o cd. Você sabe tocar violão né? Se não souber, melhor aprender. Lembro bem que ela sempre dizia que ia casar com um tipo de cara assim. E quando ela está nervosa? Fácil demais perceber. Aquela enrugadinha na testa não esconde nada de ninguém. Brigadeiro tá? Não tem nada melhor do que falar que vai fazer um brigadeiro para acompanhar de um filmezinho, que ela não se tranquiliza. E deixa ela falar. Deixa ela falar, gritar, xingar o quanto quiser. Aí quando ela der uma pausa para respirar, você a puxa para perto e diz que a ama olhando nos olhos. Ela nunca resiste, te garanto. Vez ou outra faça alguma piadinha, ou cóssegas para fazê-la rir. E sabe aqueles períodos que ela está de TPM? Então, é quando ela mais precisa de você cara. Evita de falar com algumas garotas, e fique mais tempo com ela. Desmarca o futebol, a saida com os amigos, a festa da escola… TUDO. Apenas fique com ela. Não posso esquecer que ela pira num video-game. Nem parece né? Mas “Mario Kart” sempre foi seu preferido. E deixe ela ganhar. Tudo bem que ela vai te zoar e enxer o seu saco pelo o resto do dia, mas aquela gargalhada dela de vitória é uma delícia. Dá vontade de gravar pra poder ouvir de novo, de novo e de novo. Se você a fizer chorar, recompense. Sei lá, mande bombons. Bombons de morango, de preferência. Ela se amarra. Ou então um buquê de flores. Não é qualquer flores, tem que ser tulipas. Chame para um jantar, ou um cineminha. Olha meu caro, não fique mandando SMS e ligando o tempo todo não, porque ela não gosta. Ela sempre fala que irrita. Tá que ela irritada é uma gracinha. Ela faz um biquinho de brava que dá vontade de morder, eu sei. Mas olha só, uma hora ou outra dê uma ligadinha de madrugada, faça ela acordar e diz que a ama. É coisa boba, eu sei. Só que no outro dia ela sempre fica de bom humor. Eu gosto dela de bom humor. E de mau humor também. Gosto dela de todos os jeitos. Não esquece de nenhuma data comemorativa, nunca desmarque compromissos com ela, e ela é fã de “Nicholas Sparks”. Você não o conhece né? É um escritor aí. São melosos os livros dele, tu vai ver. Até porque, ela vai te obrigar a ler ou assistir um de seus filmes. Então se lançar um livro novo, seja o primeiro a comprar. E se lançar um filme novo, a leve para assistir. Assista o filme quantas vezes ela quiser. Parece que ela nunca enjoa. Lembro que eu sempre dormia na parte preferida dela, e ela me acordava com uns tapas. O que foi? Não vai me dizer que você nunca assistiu “Um Amor Para Recordar”? Cara de que mundo você é? E não se esqueç…
- Pera aí, mas do que é que você está falando? Eu nem te conheço cara. Quem é você?
- Sou apenas o ex namorado dela.
”
Uma vez trocaram meu nome quando eu estava na quinta série. Coisa pouca: acrescentaram uma letra a mais no final dele. Mudaram meu gênero. Foi ofensivo. Trocaram a minha identidade e transformaram aquele ato em escárnio. O mesmo aconteceu com o filme que a minha primeira namorada quis ver. Tinha amor no título e romances me rendiam naúseas. Ela terminou comigo porque nem considerei ler o encarte com a sinopse. Desdenhei do filme pelo título. Preferi assistir a algo que indicasse mais ação, alguma coisa com morte no nome. Saí do cinema com os olhos marejados depois de um drama daqueles. Maldito folhetim que não quis ler. Erro do nome, erro do título. Ou seria um erro meu?
Diziam que a garota por quem me apaixonei era rodada. E eu tinha horror a essas vagabundas clichês de histórias contadas com desdém pelas pessoas. Aquela menina era apressadinha. Aquela moça passava pelas mãos de muitos homens e outros vários a seguravam por aí. Desisti da menina ao ler seus rótulos. Uma pena. A menina rodada, apressadinha e cheia de mãos a sua volta era bailarina. Um doce de menina. Descobri isso muito tempo depois. E olha que os rótulos me foram dados pelos próprios autores. Cada um observando a menina de uma perspectiva e dizendo o título que melhor se encaixava a ela (ou que, pelo menos, eles achavam que se encaixava).
Prossegui o resto da vida admirando rótulos. A maioria deles vinha com adjetivos para complemento. E se dizem que é assim é porque é. Nunca me dei o trabalho de descobrir o conteúdo das embalagens. Fosse de um filme, de algum alimento ou de uma pessoa. Mesmo que Romeu e Julieta discordem. “O que é um nome? Aquilo que nós chamamos uma rosa, com qualquer outro nome teria o mesmo perfume”. Mas quem se importa com isso hoje em dia? O moço da rua debaixo dorme com mulheres diferentes a cada dia. Um cafajeste. Um safado. Diziam as vizinhas. Uma pena que só descobririam que as mulheres eram suas musas inspiradoras dias após a sua morte num quarto úmido e vazio. Viram os quadros contando histórias. Apenas rostos e profundidades sem títulos e sem assinatura.
E quanto a esse texto, ele dispensa rótulos. Pode ser leviano. Pode ser desconexo. Deixo que você admita a si mesmo a sua necessidade de rotulá-lo. Pode ser igual àquela moça quieta da aula de física: uma tonta. Pode ser igual à poesia literária do cinema mudo: um saco. É a sua opinião, mas também pode ser a opinião dos outros. Ou a opinião deles. Deles mesmos que dão nomes a tudo e os tornam de comum acesso e utilização por todos nós. Eu ainda não aprendi a minha lição e temos que prosseguir na vida dando nome às coisas. Só que, dessa vez, deixo que você expresse a sua necessidade quase fisiológica de me rotular. Como sempre, o eu-lírico entende. (Autor Desconhecido)